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E a repórter foi à ZBM, de bicicleta!

E a repórter foi à ZBM, de bicicleta!

MONTEZUMA CRUZ*

Setembro de 1979: no bairro do Roque e de suas casas noturnas com suas luzes estroboscópicas e mulheres bem-vestidas, o segundo escalão da zona do baixo meretrício (ZBM) sonhava frequentemente com a chegada de garimpeiros a Porto Velho. Noutros pontos também era assim – o Bar Santo Antônio de seu Januário, por exemplo, na Avenida 7 de Setembro próximo ao Mercado do Km 1 e o Curral das Éguas, do Chicão, também funcionavam assim. 

No Curral das Éguas, a “pastora” com menos quilômetros rodados de cama estava na casa dos 40 anos, o que garantia a ambas as partes um papo mais sério e de efetivos resultados. Reúno aqui mais uns trechos do meu livro "Território dourado", com adendo para explicar quem é a jornalista gaúcha Cristina Ávila. 👇

Cristina Ávila - álbum pessoal

Antes do advento da fama de Mutum-Paraná, qualquer peão que se aventurasse por lá seria tratado a “leite de pata” e chamado de doutor. Depois, quando muito, conseguia lugar numa banqueta para beber canja requentada e com mais dificuldade ainda, uma velha “pastora” para passar algumas horas num quartinho dos fundos.


Disputados por brasileiros e bolivianos, Tamborete e Palmeiral foram palco de tiroteios, fuzilamentos e mortes, deixando dolorosas marcas da tragédia amazônica que acontece na zona urbana e na floresta. O Exército Boliviano espancava e prendia garimpeiros, tomando-lhes o metal apurado.


Foi com os irmãos Geraldo (da Riomar) e Edson (da Boate Christian, no Bairro Nossa Senhora das Graças, que a vida noturna de Porto Velho conheceu o apogeu.  Até que um dia, aquela casa que também se chamou “Florestal” e, ao agonizar, “Fantasma”, sobreviveu apenas em nossas memórias.


O empresário Edson pareceu picado pela mosca azul dos burareiros [assentados pelo Incra em terras para o plantio de cacau] endinheirados que desembarcavam da Bahia em Ariquemes, e mudou-se para lá de malas e bagagem. Só não levou junto as “pastoras”, mulheres que faziam ponto em sua boate e ajeitavam suas conhecidas para a clientela.


Antes de ir embora, ele contava que Ariquemes já havia abrigado uma parte das "pastoras" de Porto Velho. E que as senhoras evangélicas de hoje me perdoem com a leitura desta parte do livro: “pastora”, entre 1970 e 1980 era a designação da mulher que se entregava aos “serviços femininos” nas noites porto-velhenses.


O asfaltamento da BR-364 facilitava a vida do empresário Edson, e ele via nesse progresso a oportunidade de promover o vaivém das meninas, semana sim, semana não.


Numa cidade sem maiores opções, boêmios e notívagos – incluindo-se alguns políticos, jornalistas, empresários e profissionais liberais – encontravam nas casas de prostituição do Roque o único meio de gastar as energias, outros, o minguado excedente do salário-mínimo. Alguns empresários e garimpeiros sempre dominavam o espaço da ZBM, até mesmo patrocinando noitadas dos amigos mais chegados.


Em proporção vantajosa e diante do sempre crescente número de mulheres, além do sexo barato, eles eram disputados à porta pelas sôfregas “pastoras”. Na ZBM da Capital, eles chegavam geralmente em grupos de cinco ou de até dez homens que arrebanhavam tudo o que encontravam pela frente. A fama desses conquistadores de barranco chegava forte aos cafundós do Madeira, tanto que as chamadas “garimpeiras do sexo” (mulheres que se prostituíam naquele período) circulavam todas as noites pelas imediações e lá dentro das boates.


Nas ruas sem asfalto, driblando os lamaçais, até meninas menores de idade eram vistas em seus indefectíveis shorts fazendo o trottoir. No Bar do Januário, no Chicão e na ZBM do Roque a presença das moçoilas animava o fã clube despertando, ao mesmo tempo raiva nas colegas mais velhas, medo nos donos dos estabelecimentos e pensamento de jerico nos frequentadores.

Mosquito da malária - Agência Brasil

Mas o cenário movia-se da rara felicidade nos puteiros ao consultório farmacêutico ou hospitalar. Aqueles homens nômades vindos de outros estados amazônicos e de diversas regiões brasileiras engordavam as estatísticas da malária, consumindo altos volumes de boldo, jurubeba, eparema, aralém e eparex. Esses remédios diminuíam-lhes a ânsia de salvar o fígado.


“Entre meus melhores anos de vida, estão os primeiros anos de jornalismo. Eu era uma jovem deslumbrada que deixara Porto Alegre para experimentar a Amazônia. Nas redações porto-velhenses [ou porto-velhacas como a gente dizia] encontrei meu amigo-guru Montezuma, e mostrava pra ele cada lead que eu escrevia” – conta a jornalista Cristina Ávila, atualmente uma das melhores jornalistas ambientais do País.


“Eu era fascinada por aquela Rondônia que se transformara em estado um mês antes da minha chegada, um território federal que cresceria com a ajuda de motosserra e correntão. Foi nele que me apaixonei pelas questões ambientais e indígenas. E foi lá que aprendi a ser jornalista, provocada pelos valiosos colegas que já exerciam a profissão há alguns anos, com muito gosto e competência. O Monte pediu-me para fazer uma matéria na zona de meretrício, no Roque.


“Depois eu fui descobrir que era só uma provocação, uma brincadeira no meio da tarde na Redação do jornal A Tribuna, mas eu acreditei e fui – de bicicleta e à noite! – prossegue Cristina.


“Não havia ainda a mordomia de carro fora de hora para a equipe. Chegando ao Roque, deixei a magrela no canto da rua, que era tomada de barracos caindo aos pedaços dos dois lados, e entrei no puteiro. Saí de lá feliz, de madrugada, depois de tomar cervejas vendidas a preço de ouro e anotar muitas histórias. Deixei muitas moças e garimpeiros sem entender coisa nenhuma. Não conseguiam conceber porque uma guria de 25 anos estava mais interessada em conversar do que em arrematar algumas daquelas pepitas que brilhavam em abundância em cima das mesas” – ela acrescenta rindo muito.

Dentes de ouro, fotografia de Marcos Santilli em Rondônia 


Táxis chegavam e saíam, trazendo e levando homens de todos os tipos e caráter. Em frente a uma das seis banquinhas (quiosques-lanchonetes) das imediações das boates, a do conhecido Degas era a mais frequentada. Prato feito e sopa custavam 20 cruzeiros a unidade, e churrasquinhos, dez cruzeiros. Ao lado funcionava o snooker Taco de Ouro, cujo proprietário, conhecido por Baiano, arrendaria em 1979 a Boate Copacabana, que nasceu após a interdição definitiva da Boate Riomar, a mais frequentada por menores.


A promiscuidade amazônica começava nesse período a se chocar com a Lei, porém, sem o impacto causado pela internet – que só chegaria 18 anos depois – e mediante vergonhosos acordos entre molestadores, vítimas e pais que concordavam em receber dinheiro para esconder sua cumplicidade com a “venda” do corpo da filha.


O jornalista Jorcêne Martínez, de A Tribuna, e comigo, editor do jornal mensal Barranco, constatava situações dolorosas e ao mesmo tempo banais: “Olha, ontem um pai com 47 anos de idade me revelou casos de amigos que ofereceram filhas! Ele me disse que os conhecidos dele sabem qual será o destino delas, mas concluem que uma boca a menos é mais forte que a vergonha”.


A permissividade amazônica ali estava diante do repórter que tempos antes se surpreendera no bairro Papoco, em Rio Branco, ao relatar que uma menina de 11 anos dera à luz um bebê. E o noticiário dando conta de pais e mães “vendendo” filhas prossegue até os dias de hoje.


De alguns de seus entrevistados na ZBM, Martínez ouvia frases que pareciam ensaiadas, porém, denotavam sentimentos verdadeiros. Nessa linha: “Quando conheço uma situação de pai que entrega a filha, lembro das minhas menores; daí, quando me vejo numa enroscada igual dou um dinheirinho à mocinha e não fico mesmo. É horrível para uma virgem começar a vida num bordel.”


Com a Riomar agonizava a vida noturna porto-velhense, e nem a sua pretensa substituta, a Paissandu, a menos de cem passos da Copacabana, conseguiria reeditá-la.


Casa da Anita, Rosa dos Ventos, Stúdio 29, Cema, Tartaruga, todas com características próprias, tornavam frenética a noite em Porto Velho. Esses lugares encantavam não apenas garimpeiros, mas uma enorme casta de profissionais liberais, políticos, jornalistas e aqueles menos endinheirados, tais quais os estudantes de colégio. 

(Voltarei ao assunto) 

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NOTA

Cristina Avila, hoje com mais de 40 anos dedicados à reportagem, começou conosco, no saudoso jornal A Tribuna em Porto Velho. A provocação para ir à Zona do Baixo Meretrício deve ter inoculado em suas veias o jornalismo de vanguarda que um dia fizemos naquele diário do igualmente saudoso advogado e jornalista Rochilmer Mello da Rocha. Atualmente, Cris conclui pesquisa iniciada há mais de dez anos, a respeito do  impacto da abertura na Transamazônica nos povos indígenas; os Arara são os que mais sentiram as consequências. A BR-230 fora aberta durante o regime militar. Para compor seu livro-reportagem, ela já viajou de ônibus, pau-de-arara, balsa, naviozinho, rabeta (pequena canoa motorizada) e de Niño, que vem a ser um Uno 2001 adaptado para ser um minúsculo motorhome, no qual cabem um colchonete, um fogãozinho, uma mesinha para trabalho e um bagageiro, esse talvez o mais importante dos acessórios. Nele, vão as peças de roupa femininas, em muito boa qualidade, que recebe das amigas. Comida, já experimentou de tudo um pouco, até carne de bichos. Vem aí um baita livro. (M.C.)


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*Chegou a Rondônia em 1976. Em dois períodos profissionais esteve no Acre, norte mato-grossense, Amazonas, Pará e Roraima, a serviço da Folha de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil. Acompanhou a instalação do Centro de Triagem de Migrantes em Vilhena e a chegada dos recursos financeiros da Sudam, Polamazônia e Polonoroeste durante a elevação do antigo território federal a estado. Deu ênfase à distribuição de terras pelo Incra, ao desmatamento e às produções agropecuária e mineral. Cobriu Mato Grosso antes da divisão do estado (1974 a 1977); populações indígenas em Manaus (AM); o nascimento do Mercosul (1991) em Foz do Iguaçu, na fronteira brasileira com o Paraguai e Argentina; portos, minérios e situação fundiária no Maranhão; cidades e urbanismo em Brasília (DF).



A noite era uma criança no trevo do Roque

A noite era uma criança no trevo do Roque

MONTEZUMA CRUZ*

Reginaldo Rossi

Boêmios e demais criaturas que frequentavam a noite da Capital rondoniense desfrutavam de excelentes casas noturnas entre as décadas de 1960 e 1970. O Seresteiro, de Valter Bártolo, reunia a nata de seletos cantores e grupos de admiradores. Destaco um dos capítulos do meu livro “Território dourado” 👇 

O saudoso empresário conhecido por Pedrão foi ao mesmo tempo proprietário do lendário Restaurante Tucunaré e da Boate Cambuquira, providencialmente em frente ao primeiro na Rua Brasília. O ambiente à meia-luz, bem privê, ostentava luxuosos sofás, pufes; gentis garçons serviam batidas, cervejas e refrigerantes.

Algumas boates porto-velhenses atravessaram longos anos em atividades, outras fecharam as portas abrindo com outros nomes, outras desapareceram definitivamente.

Três boates no trevo do Roque eram bem conhecidas por frequentadores de Porto Velho e de outros estados: Rio Mar, Paissandu e Copacabana. Nelas aconteciam noites quentes de álcool, sexo e de amizades nascidas por imposições sociológicas, ou pela fraternidade de um prato de sopa no quiosque do Degas “plantado” na beira da rua enlameada.

Nelas o público conheceu o apogeu e a queda da zona do meretrício porto-velhense.

DJs formados na própria cidade eram seres que compreendiam bem a alma porto-velhense, talvez “introdutores ao pecado”, graças ao festival de letras escolhidas a cada noite. Mas que pecado era aquele tão envolvente e capaz de fazer mulheres amarem seus pares, e vice-versa.

A noite começava com Mon amour, meu bem, ma femme, na voz romântica e até fatal do pernambucano

Reginaldo Rossi:

Nesse corpo meigo e tão pequeno

Há uma espécie de veneno

Bem gostoso de provar

Como pode haver tanto desejo

Nos seus olhos, nos seus beijos

No seu jeito de abraçar

Essa canção se repetiria umas duas ou três vezes na mesma noite atendendo ao público retardatário que se alegrava depois das 22h sem o pagamento de qualquer couvert. Aliás, nas boates do bairro do Roque, já se adentrava pagando a conta grossa. Preliminares, só no quarto.

Trio Parada Dura

As andorinhas voltaram, e eu também voltei – cantava o jornalista corumbaense Jorcêne Martinez sempre que frequentava a boate da Anita, onde encontrava moçoilas vindas de Cuiabá, Goiânia e Rio Branco. O vaivém de mulheres que viajavam de ônibus e avião entre aquelas cidades e Porto Velho rendia anúncios classificados em jornais, hoje totalmente fora de cogitação pelo direito da mulher e implicações legais, especialmente quando se tratava de menores traficadas Brasil adentro e para o Exterior.

Ô bom barqueiro, bom barqueiro

Dá licença de embarcar

Que eu não sou marinheiro

Mas quero navegar

A música de Carlos Santos parecia um prefixo com chamamento àqueles que saíam da sopa do Degas e estacionavam em rodas de conversa na porta da Boate Riomar. 

Garçons com calça preta, camisa branca e gravata borboleta circulavam nos quatro cantos da casa. Ao lado, a Boate Paissandu concentrava muitas mulheres moradoras próximas às saídas para Ariquemes e Guajará-Mirim, todas elas muito bem distinguidas por eles e cortejadas pelos pontuais clientes.

Lucicleia, minha amiga, se assim posso chamá-la depois de tantos colóquios e tantas décadas depois, frequentava as duas. Ela tinha um filho pequeno e morava ao lado da irmã numa casa de madeira a um quilômetro da ZBM, nos fundos de uma serraria. A irmã também se prostituía toda noite.

Terezinha, moradora numa pequena casa na saída para Guajará-Mirim, atraía atenções e arrebatava corações ao entrar na porta larga da Riomar trajando um belíssimo vestido amarelo. 

Os homens se deixavam seduzir também pela profusão de cores nas roupas das damas da noite, mesmo as colorações inteiriças estilo azul turquesa com ou sem decote. Mas uma parte das mulheres seguia a “moda da época”, aquela saia brilhosa de couro, meias, botas e blusa curta amarrada no umbigo.

Fernando Mendes

Músicas lembradas neste livro são aquelas que teimam ficar na lembrança, tantas vezes foram tocadas pelos DJs das boates. Fernando Mendes, aquele jovem cabeludo mineiro que cantava Cadeira de rodas [1 milhão de cópias] também comovia os casais com A desconhecida:

Numa tarde tão linda de Sol

Ela me apareceu

Com um sorriso tão triste e olhar tão profundo

Já sofreu

Suas mãos tão pequenas e frias

Sua voz tropeçava também

Me falava da infância de lágrimas

Nunca teve ninguém

Nunca teve amor não sentiu o calor de alguém

Nem sequer ouviu a palavra carinho seu ninho, não existiu

Sinceramente eu chorei de tristeza

Ao ouvir

Tanta coisa que a vida oferece

Que a gente padece

Sem querer

A prostituição corria solta na cidade e nos garimpos Araras, Tamborete, Praia do Avião, Paredão, Embaúba, Morrinhos, Periquitos, Palmeiral, Praia do Avião, Sovaco da Velha e Vai-quem-quer alguns dos garimpos de ouro no Rio Madeira entre o final da década de 1970 e os anos 1980. 

Os michês custavam entre duzentos e quinhentos cruzeiros, e nas barracas de lona na beira do rio eram pagos em pepitas de ouro pesadas com justiça. Da mesma forma, assim eram pagos estabelecimentos comerciais e advogados. Alguns deles colocavam micro balanças sobre mesas e balcões.

Mais adiante conto mais. Rs

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*Chegou a Rondônia em 1976. Em dois períodos profissionais esteve no Acre, norte mato-grossense, Amazonas, Pará e Roraima, a serviço da Folha de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil. Acompanhou a instalação do Centro de Triagem de Migrantes em Vilhena e a chegada dos recursos financeiros da Sudam, Polamazônia e Polonoroeste durante a elevação do antigo território federal a estado. Deu ênfase à distribuição de terras pelo Incra, ao desmatamento e às produções agropecuária e mineral. Cobriu Mato Grosso antes da divisão do estado (1974 a 1977); populações indígenas em Manaus (AM); o nascimento do Mercosul (1991) em Foz do Iguaçu, na fronteira brasileira com o Paraguai e Argentina; portos, minérios e situação fundiária no Maranhão; cidades e urbanismo em Brasília (DF).


Texto anterior - Reciclagem de vidros se impõe a Rondônia

Reciclagem de vidros se impõe a Rondônia

 Reciclagem de vidros se impõe a Rondônia

 MONTEZUMA CRUZ*

O repórter e Lucineide, no interior do depósito  da Recoop, em Rolim de Moura

Segundo o químico francês Antoine-Laurent de Lavoisier, na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Pensando nisso, podemos notar que existem na Capital e no Interior de Rondônia algumas possibilidades de aplicação dessa máxima.

Vidro tem sobrando, falta recicladores em Rondônia

A exemplo de outras cidades que consomem produtos embalados em vidros, Rolim de Moura (Zona da Mata) esbanja uma “montanha” deles, pois a sua cooperativa de reciclagem (Recoop) não dispõe da prensa específica, limitando-se a trabalhar com papel, papelão e plástico.

Recentemente visitei o barracão dos cooperados catadores, constatando que o estado vem deixando escapar esse filão de negócios.

O vidro é fabricado basicamente de areia e calcário, cujas reservas no estado são para, pelo menos, duzentos anos.

A presidente da Recoop, Lucineide dos Santos Silva, relatou-me que, nas quatro viagens diárias dos dois caminhões cedidos pelo Governo de Rondônia e pela Prefeitura de Rolim, chegam também ao pátio carregamentos de vidros.

O que faz com esse material? Mais de 20 toneladas estão amontoadas no terreno ao lado do barracão da Recoop.

Esporadicamente, quando aparece algum comprador de São Paulo, a 2.479 quilômetros de distância, parte do vidro deixa a cidade para ser reciclado longe de Rondônia.

Alô Sedam, ou quem mais se dispuser a enxergar essa realidade: se o vidro for triturado na própria Zona da Mata, dezenas de famílias ganharão, a Recoop ganhará, a economia contará com um item a mais em seu movimento anual.

O ideal é triturar para não perder, moer para não poluir o ambiente com mosquitos que se criam e multiplicam em garrafas, garrafões e outros vasilhames de alimento ou remédio. Não se pode desprezar esse potencial alimentado pelos catadores de Rolim, que já veem alguma renda com papelão, papel e isopor, dos quais se originam até peças de artesanato para vendas na feira, ou porta a porta.

Em 2024, consultando recente levantamento da Associação Brasileira das Indústrias de Vidro (Abividro), este repórter apurou que o Brasil produz por ano mais de oito bilhões de unidades de vidro.

Conforme a entidade, aproximadamente 1,3 milhão de toneladas do material são colocadas no mercado nos mais variados formatos, movimentando aproximadamente R$ 120 milhões. Deste total, somente trezentas mil toneladas (quase 25%) são destinadas à reciclagem.

Entenderam, agora, que Rondônia tem a ganhar socialmente se modernizar a Recoop?

A gente ouve uma falação imensa a respeito das eleições de 2026, mas dificilmente encontra um iluminado ou uma iluminada dispostos a enxergar definitivamente que “lixo é dinheiro.” À exceção de Lucineide, essa lutadora socioambiental que engrandece a Zona da Mata.

Além de ser infinitamente reciclável, o vidro é um dos materiais mais simples e eficientes para reciclar. Entre os problemas que impedem a economia circular do vidro no País estão: a coleta seletiva ainda não consolidada em muitas cidades, e o descarte incorreto pela população.

No caso de diversas cidades do interior rondoniense, falta mesmo investidor disposto a conjugar o verbo transformar. Quem sabe, a Associação Rondoniense de Prefeitos e a Sedam possam se dar as mãos – e as cabeças também.

Se assim for, logo tudo se resolverá. 

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*Chegou a Rondônia em 1976. Em dois períodos profissionais esteve no Acre, norte mato-grossense, Amazonas, Pará e Roraima, a serviço da Folha de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil. Acompanhou a instalação do Centro de Triagem de Migrantes em Vilhena e a chegada dos recursos financeiros da Sudam, Polamazônia e Polonoroeste durante a elevação do antigo território federal a estado. Deu ênfase à distribuição de terras pelo Incra, ao desmatamento e às produções agropecuária e mineral. Cobriu Mato Grosso antes da divisão do estado (1974 a 1977); populações indígenas em Manaus (AM); o nascimento do Mercosul (1991) em Foz do Iguaçu, na fronteira brasileira com o Paraguai e Argentina; portos, minérios e situação fundiária no Maranhão; cidades e urbanismo em Brasília (DF).

Texto anterior - O chá da folha de coca é milenar

O chá da folha de coca é milenar

O chá da folha de coca é milenar

MONTEZUMA CRUZ*

Folhas de Coca são vendidas nas ruas, na Capital, La Paz, e em cidades bolivianas - Foto Agência Boliviana de Comunicação

Coca não é cocaína. Esta advertência está presente em um mural no centro de La Paz, Capital boliviana, constatou o jornalista Altino Machado, que decidiu passar o seu aniversário nos Andes. Há mais de 4.500 anos as folhas de coca são utilizadas por indígenas da América do Sul, principalmente em rituais religiosos. A aproximadamente 3.650 metros acima do nível do mar, La Paz possui um clima subtropical de terras altas incomum, com verões chuvosos e invernos secos.

No Brasil, onde a desinformação se junta ao preconceito, essa diferença passa despercebida em escolas, organismos policiais e, incrivelmente, dentro dos próprios governos. É assim também em outros países.

A folha de coca não é droga, mas alimento. Segundo estudos científicos, tão bom que possui boa quantidade de vitaminas e nutrientes, tendo mais cálcio que o leite, mais Vitamina A que a cenoura. Seu consumo em forma natural não causa dependência nem danos à saúde. Traz somente benefícios.

O cloridrato de cocaína, sim, é uma droga química. No entanto, notícias de grandes apreensões de cocaína ou de overdoses que levam a pessoa a óbito voltam a confundir.

“A ânsia de difamar supera a vontade de aprender”, lamenta a este repórter um funcionário da Secretaria de Justiça que estuda o comportamento de detentos punidos por tráfico.

Costumeiramente, a Polícia Militar faz campanha de prevenção ao uso de drogas nas escolas, mas evita explicações. “A cultura é boliviana, não nossa, os alunos confundiriam tudo”, comenta o mesmo servidor.

Jornalista Altino Machado viu escrito esta semana  num muro em La Paz: " Coca não é Cocaína" - Foto Facebook de A. Machado

Ainda nos anos 1980, o jornalista Nelson Townes de Castro, de Porto Velho, cobriu uma missão de marines americanos na região do Chapare – praticamente, a destruição de lavouras de coca. Ao retornar, levou um saco cheio de folhas para o Palácio Presidente Vargas (ainda sede do Governo de Rondônia), e na sala do cafezinho uma bondosa zeladora preparou o chá.

Servido a diversos funcionários, inclusive a jornalistas, que repetiram xícaras à vontade, mesmo assim o chá segue até hoje estigmatizado.

Em 2011, visitando Cuzco e Machu Picchu, com minha filha médica, Vânia de Lourdes, observei que o chá das folhas de coca é servido no desjejum e as pessoas também podem bebê-lo nas portarias de hotéis, pensões e albergues. Bules cheios e xícaras estão sempre à disposição em mesas bem ornamentadas. Afinal, ele é tradicional das culturas andinas.

A cocaína é o principal alcaloide do arbusto Erythroxylon, lembram as pesquisadoras Luciana Signor e Maristela Ferigolo, em estudo na Unicamp. “Existem cerca de duzentas espécies, mas apenas 17 delas são utilizadas para extração de cocaína, sendo o principal gênero a Erythroxylon coca. O arbusto é encontrado ao leste dos Andes e acima da Bacia Amazônica. É cultivada em clima tropical e altitudes que variam entre 450 m e 1800 m acima do nível do mar.”

O que diz Altino

No Facebook, Altino Machado, que mora em Rio Branco (AC), comenta: “Março é um mês de renovação, e reservei a primeira semana para celebrar meu aniversário de uma maneira única: enfrentando o desafio da altitude em La Paz, a Capital mais alta do mundo.

La Paz: tradição milenar no uso da folha da coca para um chá que alimenta - Foto Altino Machado

A cidade boliviana, com seu verão chuvoso, frio e úmido, é um local emblemático para testar a resistência do corpo, da mente e do coração.

Percorri os arredores da cidade de táxi, ônibus, barco e a pé, descobrindo um entorno vasto, belo e histórico que me deixou sem fôlego. E não foi apenas a altitude que me tirou o fôlego, mas também o povo, a beleza e a riqueza cultural da região.

Os sintomas do mal da altitude foram moderados: uma leve dor de cabeça, falta de ar, cansaço e, em um único dia, formigamento nas mãos e nos pés que me fez lembrar da minha própria vulnerabilidade.

Ambulantes La Paz - Foto Altino Machado

Tudo isso debelado pelos poderes curativos da folha de coca. Aliás, vi num mural da cidade uma máxima: “Coca não é cocaína.”

Foi minha vulnerabilidade que me permitiu apreciar mais uma vez a grandiosidade de La Paz e sua gente. A Cidade do Céu, com sua mistura única de culturas e paisagens, é um lembrete de que, mesmo nos lugares mais inóspitos, há beleza e força espantosas para serem encontradas.

Infelizmente, por desinformação e preconceito, viramos as costas aos nossos hermanos. Como diz o poeta Beto Brasiliense: viemos também dos Andes.”


UM POUCO MAIS

● Entre os principais benefícios do chá destacam-se: a redução da fadiga, aumento da concentração e alívio de dores de cabeça. O chá de coca também possui propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. No entanto, o consumo em excesso pode levar a efeitos colaterais como insônia, ansiedade, aumento da pressão arterial e dependência. 

● O cloridrato de cocaína é uma substância química que se extrai da folha de coca através de processo químico, no qual são usadas uma enorme quantidade de folhas e mais uma grande quantidade de gasolina, ácido clorídrico, entre outros produtos. O composto isolado vira droga utilizada pela indústria farmacêutica e por dependentes químicos, podendo causar vício e danos à saúde.

● Apesar de ser legal em alguns países, o chá de coca é ilegal em outros, como nos Estados Unidos, onde a Igreja Nativa obteve há décadas o direito ao uso do peiote em rituais religiosos, e as "religiões da floresta brasileira" (UDV, Santo Daime, Barquinha, entre outras), da mesma forma, com o chá ayahuasca (ou hoasca), desde a decisão histórica e unânime da Suprema Corte Americana, em 2006.

● No caso das folhas de coca, a concentração de cocaína é inferior a 1% e, dependendo da espécie, sequer ultrapassa 0,2%. Ela é o único alcaloide psicoativo da planta e, devido à baixíssima concentração, seus efeitos não são sentidos pelo simples consumo da planta em seu estado natural.

● As folhas são usadas com fins medicinais e para amenizar impactos do ar rarefeito desde tempos ancestrais. (Lory Aguiar, em "Poder dos chás para a saúde").


Texto anterior - Cientista que ajudou a Madeira-Mamoré a combater doenças endêmicas morreu infeliz (3 – final)


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*Chegou a Rondônia em 1976. Em dois períodos profissionais esteve no Acre, norte mato-grossense, Amazonas, Pará e Roraima, a serviço da Folha de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil. Acompanhou a instalação do Centro de Triagem de Migrantes em Vilhena e a chegada dos recursos financeiros da Sudam, Polamazônia e Polonoroeste durante a elevação do antigo território federal a estado. Deu ênfase à distribuição de terras pelo Incra, ao desmatamento e às produções agropecuária e mineral. Cobriu Mato Grosso antes da divisão do estado (1974 a 1977); populações indígenas em Manaus (AM); o nascimento do Mercosul (1991) em Foz do Iguaçu, na fronteira brasileira com o Paraguai e Argentina; portos, minérios e situação fundiária no Maranhão; cidades e urbanismo em Brasília (DF).

Cientista que ajudou a Madeira-Mamoré a combater doenças endêmicas morreu infeliz (3 – final)

Cientista que ajudou a Madeira-Mamoré a combater doenças endêmicas morreu infeliz (3 – final)

MONTEZUMA CRUZ*

Em suas missões no Rio de Janeiro, o cientistas sentiu a ingratidão popular: nem sempre o bem é aceito por pessoas teimosas; isso acontece também no País, desde a Covid-19 ( Foto acervo Fiocruz)

Deve ter sido muito doloroso para a família do médico e cientista Oswaldo Cruz vê-lo tão triste antes de morrer, em fevereiro de 1917, depois de conseguir pôr fim à febre amarela, controlar a peste bubônica e a varíola. Em 1902 ocorreram cerca de mil óbitos no Rio de Janeiro, e dois anos depois, apenas 48. Cruz se foi aos 45 anos, frustrado com a política da época, traumatizado e infeliz, conta o médico paraense Ary Tupinambá Pena Pinheiro em seu livro Viver Amazônico, editado em 2000. 

Em 1912, Cruz, paulista de São Luiz do Paraitinga, concluía um relatório com 20 recomendações profiláticas para construtores da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, a mais isolada do Planeta naquele início de século.

Doutor Ary, partícipe de importantes capítulos na história dos velhos territórios federais do Guaporé e Rondônia, explica um deles: “Quando a companhia americana May, Jeckyll & Randolph iniciou a construção da Madeira-Mamoré em 1907, cumpria um dos itens do Tratado de Petrópolis, assinado em 17 de novembro de 1903, obra de José Maria da Silva Paranhos, o hábil Barão do Rio Branco, no governo de Rodrigues Alves.”

No Museu da Madeira-Mamoré, em Porto Velho, a lembrança do trabalho de Carlos Morsing

A companhia norte-americana não preparou com antecedência a região onde rasgou a floresta para assentar trilhos, o que resultou na mortandade entre as primeiras levas de trabalhadores de diversas partes do mundo.

Conforme frisa Ary, alguns deles tinham experiência na construção de ferrovias em Cuba, nas zonas pantanosas da Guatemala e na abertura do Canal do Panamá, onde havia situação semelhante à de Santo Antônio do Rio Madeira.

“Ainda estava viva na mente de todos a lembrança dos sucessivos fracassos das empresas que tentaram construir a ferrovia e malograram, fugindo daqui, inclusive as Comissões Técnicas de Carlos Morsing e Júlio Pinkas, de Santo Antônio.

Enfermaria do Hospital da Candelária no século passado (Foto Dana Merril)
“Nos primeiros anos de construção, os trabalhos pouco rendiam. Os trabalhadores só apresentavam produtividade nos primeiros meses. Eram atacados por várias moléstias: ancilostomíase, beribéri, disenteria, pneumonia, sarampo e principalmente o impaludismo, a ‘doença da Amazônia’, segundo o grande Oswaldo Cruz.”

A Companhia May, Jeckyll & Randolph havia construído o Hospital da Candelária em 1907, mas a inexistência de um serviço médico modelar impossibilitava aos engenheiros continuar a obra. Trouxe, então, dos Estados Unidos um hospital-modelo completo.

“Os doutores William Helmerich, Walcott, Whitaker, Walsh, Poncy, River, Carl Lovelace, sob a chefia do Dr. Belt, percorriam diariamente em automóveis de linha as turmas de construção, visitando os doentes e fazendo conduzir os casos mais graves para o Hospital da Candelária”, conta Ary.

Primeiras tentativas para o assentamento de trilhos desafiou duas empresas desistentes; trabalhadores voltam aos acampamentos picados por anofelinos; malária matou muitos deles (Foto Dana Merril)

Durante quatro anos – 1908-1911 – o registro de internamento do hospital chegou a 30.500 doentes, e as quotas anuais de quinino* importadas totalizavam duas toneladas.

“Tenho praticado continuamente, por 16 anos, nos países tropicais, e não hesito em afirmar que a região a ser atravessada pela Madeira-Mamoré é a mais doentia do mundo”, afirmava o Dr. Belt em seu relatório. Ele apurava: 30% a 50% dos auxiliares estrangeiros e 40% a 75% dos nacionais estavam inválidos pela malária.” E seu colega Lovelace espantava-se: essa doença atingia 95% dos trabalhadores.

Oswaldo Cruz ao microscópio em laboratório de Manguinhos, observado pelo filho Bento Oswaldo Cruz (e) por Burle de Figueiredo (d) (Acervo Fiocruz - 1910)

A quinização intensiva passou a ser adotada para combatê-la em suas diferentes formas clínicas, entre as quais, a chamada febre negra ou febre hemoglobinúrica (black fever).

Ary acreditava que naquele tempo já existia a hepatite a vírus, a febre amarela silvestre e a esperocthose hiteromorrágica**, cujos sintomas são semelhantes. 

“(...) Os alagadiços deixados pelas cheias do Rio Madeira eram muitos, constituindo-se viveiros de larvas de anofelinos. E a companhia construtora decidiu, então, para solucionar o problema, convidar o jovem sanitarista Oswaldo Cruz, que havia saneado o Rio de Janeiro da febre amarela e acabara de exterminar o surto dessa doença em Belém do Pará, no início do governo João Coelho.”

Cruz chegou a Porto Velho a 9 de julho de 1910, acompanhado de outro sanitarista, Belizário Pena, que o ajudara na extinção do vírus amarílico no Rio de Janeiro. Eles se instalaram no Hospital da Candelária e, durante suas permanências, percorreram 33 quilômetros da linha férrea em construção.

O médico sanitarista escreveu o relatório: “Considerações gerais sobre as condições sanitárias do Rio Madeira”, e o enviou no início de setembro de 1910 ao representante das Companhias Madeira-Mamoré e Port of Pará, no Rio de Janeiro, Carlos Sampaio. 

A repercussão na área médica foi grande: os sanitaristas Leylson Cardoso e Rubens da Silveira Brito publicaram o relatório no livro: “A febre amarela no Pará”, de autoria de ambos.

Cruz escrevia: “A vila de Santo Antônio não tem esgotos, nem água canalizada, nem iluminação de qualquer natureza. O lixo e todos os produtos da vida vegetativa são atirados às ruas. (...) O gado é abatido em plena rua a carabina e as porções não aproveitadas – cabeça, couro, cascos, vísceras etc. – são abandonados no próprio local onde a rês sacrificada, jazendo num lago de sangue. Tudo apodrece junto às habitações e o fétido que se desprende é indescritível. Sobre os organismos que vivem em tal meio o impaludismo faz as maiores devastações que se conhecem. A população infantil não existe e as poucas crianças que se veem têm vida por tempo curto. Não se conhecem entre os habitantes de Santo Antônio pessoas nascidas no local: essas morrem logo. O impaludismo, moléstia evitável, o único terror sério da região.”

O sanitarista constatava que a insalubridade na região começava em meados de maio. “Entre o máximo da enchente, de 96 metros acima do nível do mar, e o nível mínimo da vazante, de 82m, há 14m de diferença. Formam-se, assim, imensos criadouros de anofelinos a partir do início da vazante, assegurando a ação deletéria dos transmissores da malária, que se acentua de maio a outubro.”

Cruz notava que o conjunto de medidas de agressão impedia a reprodução dos mosquitos transmissores, constituindo o saneamento definitivo da zona. E recomendava a concentração de esforços para prevenir a eclosão da malária: obrigatoriamente, doses de quinino de 75 centigramas a 1 grama, todo dia, quando o trabalhador chegava do serviço.

Tal providência fora colocada em prática a partir de 1º de agosto de 1910, alterando o quadro das baixas por malária aguda. Recomendava ainda como profilaxia mecânica, a instalação de telas metálicas de proteção contra o mosquito, idênticas às da Candelária e das casas dos técnicos da Companhia, em Porto Velho.

Alimentos deteriorados provocavam infecções e intoxicações, constatava o médico sanitarista: “A base da alimentação é a carne seca e a farinha d’água. (...) Tive ocasião de conversar com um dono de seringal do rio Jacy-Paraná, que me declarou: o jabá podre não vai para o rio, tem de ser adquirido pelos seus empregados. (...) Alimentos frescos não existem. O consumo de álcool é fabuloso, apesar do preço exorbitante. Com tal regime alimentar não há organização que possa resistir às entidades mórbidas que assolam o território.”

 Ary acrescenta: “Nas casas comerciais de Belém e Manaus havia o caixeiro de solda: sua tarefa era furar as latas de conservas para atenuar os vestígios dos gases da decomposição. Conseguiam, assim, enganar os compradores.”

Quanto aos locais onde funcionou o Hospital da Candelária e o cemitério internacional, a três quilômetros do Centro antigo de Porto Velho, nos anos 1980 foi tomado por empresas imobiliárias e a própria população porto-velhense contentou-se em chamá-lo de bairro.

*O quinino é uma substância alcaloide natural encontrada na casca da árvore da quina, conhecida cientificamente como Cinchona. Essa árvore é nativa das regiões tropicais da América do Sul, como Peru, Colômbia, Equador e Bolívia. É amplamente utilizado na medicina como agente antimalárico – um dos mais antigos e eficazes tratamentos.  

**Ary Pinheiro lembra que os professores Noth e Mayer, do Instituto Tropical de Hamburgo, estudaram a hemoglobinúrica palustre, concluindo que essa forma clínica da malária era provocada pelo excesso da aplicação de quinino, entretanto, em 1942, durante a 2ª Guerra Mundial, o médico Gellevardini, do exército colonial inglês, provou o contrário, na Argélia, tratando 143 hemoglobinúricos com a substância.

NOTA

Porto Velho homenageou o cientista, dando seu nome à principal policlínica do estado. No Rio de Janeiro, a Fiocruz – uma das instituições responsáveis por tomar a dianteira na produção de vacinas contra Covid-19 em território nacional – recebeu o nome em homenagem à trajetória do médico, que fundou e dirigiu o órgão público no fim do século XIX. Na mesma época, surgia em São Paulo o Instituto Butantan, fundado pela mesma equipe de Oswaldo Cruz, também com o objetivo de combater as epidemias que estudavam.

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*Chegou a Rondônia em 1976. Em dois períodos profissionais esteve no Acre, norte mato-grossense, Amazonas, Pará e Roraima, a serviço da Folha de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil. Acompanhou a instalação do Centro de Triagem de Migrantes em Vilhena e a chegada dos recursos financeiros da Sudam, Polamazônia e Polonoroeste durante a elevação do antigo território federal a estado. Deu ênfase à distribuição de terras pelo Incra, ao desmatamento e às produções agropecuária e mineral. Cobriu Mato Grosso antes da divisão do estado (1974 a 1977); populações indígenas em Manaus (AM); o nascimento do Mercosul (1991) em Foz do Iguaçu, na fronteira brasileira com o Paraguai e Argentina; portos, minérios e situação fundiária no Maranhão; cidades e urbanismo em Brasília (DF).