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Quem diria? O Governo de Rondônia arrecadará glebas devolutas

Na antevéspera das eleições gerais no País, o Governo de Rondônia fará a primeira arrecadação “sumária e administrativa” de terras devolutas após a consolidação de projetos fundiários e de colonização iniciados em 1970 e concluídos no início da década de 1980 pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).

Foto: Gleison Miranda

Para esse serviço inédito, a Secretaria Estadual de Patrimônio e Regularização Fundiária (Sepat) constituiu uma comissão de oito servidores técnicos*.

Desde 2022, o governo estadual mantém convênio com o INCRA, para cuja superintendência estadual cede funcionários da Sepat que trabalham no reconhecimento da atual situação fundiária no estado.

16,1 MILHÕES DE HECTARES

Levantamento preliminar da Inteligência Territorial sobre as Terras da União no estado indica a existência de aproximadamente 16,1 milhões de hectares de glebas. O diagnóstico aponta 79 glebas, das quais, 65 com georreferenciamento de perímetro e 14 sem, abrangendo áreas arrecadadas.

Até então, a maior arrecadação de terras devolutas em Rondônia ocorreu no período territorial. Conforme lembra o advogado Amadeu Matzembacher Machado, o INCRA, onde trabalhou, arrecadou 1 milhão e 200 mil hectares de antigos seringalistas. Esse volume pertencia ao total de 22 milhões e 800 mil de terras devolutas que Rondônia possuía até 1976.

Instituto de  Terras segue misterioso

Em nenhuma linha, a Portaria nº 64, de 10 de março de 2026, publicada no Diário Oficial Eletrônico menciona o Instituto de Terras do Estado de Rondônia (Iteron), que, embora criado com aprovação da Assembleia Legislativa, nunca prestou contas do que fez, nem são conhecidos seus diretores.

Assinado pelo diretor executivo da Sepat, Davi Machado Alencar, o documento assinala que a Lei Estadual nº 214, de 30 de novembro de 1988 dispõe sobre terras públicas, disciplinando sua ocupação. Informa, ainda, que o Decreto nº 30.746, de 7 de outubro de 2025, dá outras providências; e a Instrução Normativa nº 1, de9 de março de 2026 estabelece procedimento para arrecadação. 

A Sepat não estima o atual volume de terras públicas, nem o custo desses levantamentos. Legalmente, o governo deverá iniciar a arrecadação, matricular as terras no regime de imóveis, e em seguida regularizar posses antigas.

 

“Promover assentamentos com políticas públicas”

Estranhamente, o Portal da Transparência do Governo de Rondônia não inclui o Iteron entre os órgãos públicos (Governadoria, Casas Civil e Militar, Secretarias, Superintendências, Fundações e institutos) que prestam contas de seus atos.

Outros dois institutos figuram nos atos do DIOF: Instituto Estadual de Desenvolvimento da Educação Profissional (Idep) e Instituto de Pesos e Medidas (Ipem)

Em 2025, um decreto orçamentário em setembro mencionou a abertura de um crédito adicional suplementar no valor de R$ 57,3 mil “para reforço de dotações.”

Até 2024, o Ministério Público Federal trabalhava em 67 procedimentos relacionados à reforma agrária e questões fundiárias de ocupação e grilagem de terras públicas em Rondônia.

A Lei 1.180 de 14 de março de 2023 criou o ITERON com a seguinte Redação:

Subseção I

Do Instituto de Terras do Estado de Rondônia – ITERON

Art. 111-B. Fica criado o Instituto de Terras do Estado de Rondônia – ITERON, autarquia estadual vinculada à Secretaria de Estado de Patrimônio e Regularização Fundiária – SEPAT, dotado de autonomia administrativa e financeira, regido por esta Lei Complementar e por seu regimento interno, aprovado mediante Decreto do Poder Executivo, competindo-lhe:

I – Promover a discriminação administrativa das terras localizadas na área rural de seu território;

II – Reconhecer as pessoas legítimas e destinar as terras apuradas, arrecadadas e incorporadas ao patrimônio imobiliário do Estado de Rondônia, de forma a promover a democratização do acesso à terra e fixação do homem no campo;

III – realizar, bienalmente, a avaliação das terras devolutas e do patrimônio do Estado, agrupadas nas respectivas regiões, atribuindo valoração uniforme a cada lote, respeitando as especificidades;

IV – Promover a formalização e tramitação, em tempo razoável, de processos administrativos que visem à expedição de licenças de ocupação, títulos provisórios e definitivos, com chancela do Governador do estado de Rondônia;

V – Coordenar a elaboração e a implementação dos planos de regularização fundiária rural por meio de convênio e/ou outros instrumentos;

VI – Promover, em conjunto com demais órgãos ou entidades, apoio técnico, social e ambiental aos assentados nos programas do Estado, para implementação de políticas públicas de desenvolvimento agrícola e preservação ambiental; e nacionais ou internacionais, para execução de suas finalidades e competências.

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*São integrantes da Comissão Permanente de Arrecadação de Terras: Ilenon Reis Barroso Ribeiro, presidente da Comissão, membro da Coordenadoria de Regularização Fundiária Rural na Sepat; Felipe Costa Andrighi e Tâmara Katiele Soares Oliveira, da mesma Coordenadoria; Carlos Alexandre Lourenço, Guiherme Lira Souto e Clebson Vasconcelos Pinheiro, todos da Gerência de Sensoreamento e Cartografia; Caroline Braga de Almeida, da Gerência de Obtenção e Acervo Fundiário; e Márcio Fábio Alves da Silva Júnior, da Assessoria Técnica.

 

*Chegou a Rondônia em 1976. Em dois períodos profissionais esteve no Acre, norte mato-grossense, Amazonas, Pará e Roraima, a serviço da Folha de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil. Acompanhou a instalação do Centro de Triagem de Migrantes em Vilhena e a chegada dos recursos financeiros da Sudam, Polamazônia e Polonoroeste durante a elevação do antigo território federal a estado. Deu ênfase à distribuição de terras pelo Incra, ao desmatamento e às produções agropecuária e mineral. Cobriu Mato Grosso antes da divisão do estado (1974 a 1977); populações indígenas em Manaus (AM); o nascimento do Mercosul (1991) em Foz do Iguaçu, na fronteira brasileira com o Paraguai e Argentina; portos, minérios e situação fundiária no Maranhão; cidades e urbanismo em Brasília (DF).

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  Antes do Estado, a escravidão; horrores vistos pelo repórter - por Montezuma Cruz (*)

Nota de responsabilidade

As opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial deste jornal.

Antes do Estado, a escravidão; horrores vistos pelo repórter - por Montezuma Cruz (*)

A prática do trabalho em condições análogas à escravidão em Colorado do Oeste, Cerejeiras, Chupinguaia e Vilhena estava longe de ser um fato novo, constatei em 1981 ao conversar com o padre salesiano Ângelo Spadari, na Casa Paroquial. Ele me contava da rotineira ida de trabalhadores para as fazendas da região, alimentada diariamente por 'gatos' originários de Mato Grosso ou de estados do sul.

Foto: Fome na praça - 1985 -  M. Cruz/Reproduções do JB

'Gato' era o apelido da pessoa que intermediava mão de obra rural, maiores ou menores de idade. Vinte anos depois, numa vultosa operação na região de Vilhena a Polícia Federal libertou de uma só vez cerca de mil trabalhadores escravizados, a maioria deles analfabetos e arregimentados por esses 'gatos', num vaivém muito comum na extensão de terras entre essa parte rondoniense e a região do Aripuanã mato-grossense.

Interessante é que apesar da modernidade que trouxe máquinas e potentes motoserras para duas derrubadas, os 'gatos' não deixaram de existir.

Fome na praça 1985 - M. Cruz/Reproduções do JB

Talvez ingenuamente, uma juíza recém-chegada ao cargo na Vara do Trabalho lá por 2010 ignorasse a situação. A magistrada argumentava assim: “Quando o patrão conduz o empregado a um supermercado e o condiciona ao trabalho para pagar os utensílios e alimentos isso configura um adiantamento”. “Que deve ser descontado no futuro”, defendia.

Baseava-se na lógica dos seringais amazônicos. Na região onde ocorreram os piores casos de “escravidão branca” nos anos 1970 e 80, a juíza agradou e desagradou. No entendimento dela, essa degradação humana “não mais existia no Brasil”. Saísse do seu gabinete e viajasse pelos cartões rondonienses, notaria os horrores.

Mas insistia: "Escravidão, só a dos negros, no Brasil Colônia."  
Cerejeiras, maio de 1986. Durante alguns meses as fazendas São José e Cerejeiras não pagavam salários para duzentas pessoas mantidas sob sevícias e tortura. Esse era o contingente que apanhava de cipó e se sujeitava a mutilações com motosserras enquanto desmatava ilegalmente.

Este repórter viajou para lá, a fim de constatar a situação denunciada semanas antes pela Igreja Católica.

Fome na praça, 1985 - M.Cruz/Reproduções do JB

Multados pela Justiça, os donos mandaram libertar os peões, mas eles ainda foram vítimas de capatazes raivosos. Saíram das fazendas a pé e alguns baleados nas pernas e nas costas.

Situação semelhante também ocorreu nas Fazendas Gauchinho, Antonio José, Santa Ana e Bordon, de onde foram libertados dezenas de peões.  Encontrei-os esfomeados, comendo em marmitas na pracinha de Cerejeiras. Ali estavam rapazes com solas e calcanhares dos pés cortados, para que não fugissem (!).

O novo estado não vivia o Brasil Colônia, período em que os negros eram identificados pela dentição, mas se vergava à tortura no meio do mato, longe dos olhos de quem deveria impedi-las. A escravidão camuflada ficou conhecida por “trabalho forçado”. Ouvi o promotor de Justiça Osvaldo Luís Araújo e o delegado de polícia, Rivaldo Silva.

Este preferia lavrar o inquérito com o termo “semiescravidão”.
Papel triste e ao mesmo tempo risível desempenhava o destacamento da PM em Cerejeiras: o soldado Riva oferecia-se para convencer os peões a procurar outros patrões, ali mesmo nos quartos de pensões ou na rodoviária de Vilhena, às barbas da lei.

Sem disfarçar suas intenções, o gato Eurides Gonçalves colocava-se ao lado dele para informar que precisava de uns 70 homens para desmatar uma área numa desconhecida fazenda na região do Juruena, em Mato Grosso. Vilhena, o portão de entrada ao novo estado, tornava-se o polo concentrador da mão-de-obra contratada irregularmente para a derrubada da floresta.  

Nem aquela porteira colocada pelo governador Teixeirão para a triagem de migrantes impediu que centenas deles fossem poupados daqueles horrores.

(*) Originalmente publicada no jornal eletrônico Cool do Mundo, de Vilhena.

*Chegou a Rondônia em 1976. Em dois períodos profissionais esteve no Acre, norte mato-grossense, Amazonas, Pará e Roraima, a serviço da Folha de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil. Acompanhou a instalação do Centro de Triagem de Migrantes em Vilhena e a chegada dos recursos financeiros da Sudam, Polamazônia e Polonoroeste durante a elevação do antigo território federal a estado. Deu ênfase à distribuição de terras pelo Incra, ao desmatamento e às produções agropecuária e mineral. Cobriu Mato Grosso antes da divisão do estado (1974 a 1977); populações indígenas em Manaus (AM); o nascimento do Mercosul (1991) em Foz do Iguaçu, na fronteira brasileira com o Paraguai e Argentina; portos, minérios e situação fundiária no Maranhão; cidades e urbanismo em Brasília (DF).

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  O jumento é nosso irmão - por Montezuma Cruz*

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