Últimas Notícias
Brasil
Mostrando postagens com marcador Colunistas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Colunistas. Mostrar todas as postagens

O jumento é nosso irmão - por Montezuma Cruz*

Burros e jumentos vindos do Ceará viajavam anestesiados (Foto: Gilson Costa /Biblioteca IBGE)  - Gente de Opinião
Burros e jumentos vindos do Ceará viajavam anestesiados (Foto: Gilson Costa /Biblioteca IBGE)

Em meio século de Rondônia, o jornalista cearense Ciro Pinheiro de Andrade viu a saga da cassiterita. Seu olhar sociológico traz para análise histórica o trabalho duro de animais de carga para garimpeiros e multinacionais do minério de estanho no período 1960-1970

Por óbvios motivos, as Redações de jornais prestavam mais atenção a balanços financeiros de fim de ano, volume de estanho apurado e enviado à Usina Siderúrgica de Volta Redonda, e nas festas promovidas pelas empresas, geralmente com almoços e jantares aos donos de jornais, rádios e TV.

A pauta jornalística cometia ainda o pecado de não escalar repórteres para acompanhar o funcionamento de máquinas gigantes que resgavam a floresta para extrair minério. Muito menos se interessava por burros e jumentos que suportavam no lombo o peso dos sacos carregados com cassiterita apurada.

Tampouco historiadores disseram, até então, algo a respeito. O capital atropela a própria literatura, escondendo o heroico esforço animal no quintal e na floresta explorada por multinacionais.

Quem analisar edições de jornais e revistas daquele período irá notar que as reportagens mostravam: aviões desaparecidos, indígenas, formação de vilas, o trem da Madeira-Mamoré, possíveis jazidas de diamantes, e a presença dos soldados do Exército em missões amazônicas. Burros e jumentos, se quiserem, só em fotos raríssimas de arquivos pessoais ou da Biblioteca do IBGE.

Jornalista Ciro Pinheiro, cearense, viveu décadas em Porto Velho (Foto: Gente de Opinião)  - Gente de Opinião
Jornalista Ciro Pinheiro, cearense, viveu décadas em Porto Velho (Foto: Gente de Opinião)

Para Ciro Pinheiro, o burro e o jumento podem também ser vistos como pioneiros no Território Federal de Rondônia. Antes do Hino do Estado eles já eram destemidos pioneiros, eu concluo.

Algumas décadas atrás, jumentos ‘importados’ do Ceará, depois de anestesiados, eram amontoados em avião taxi aéreo e vinham parar nos garimpos do município de Porto Velho, cuja extensão era ainda mais gigantesca que os seus 34mil Km². “Verdadeira saga”, observa o jornalista.

Aqui, os animais eram usados pelas empresas mineradoras no transporte de cassiterita. “Somente o burro e o jumento, com suas colunas horizontais tinha condições de transportar o pesado minério de estanho, da lavra no meio da floresta, até o acampamento”, relata o jornalista.

Animais de carga são parte da história mineral de Rondônia (Foto: Marco Zero)  - Gente de Opinião
Animais de carga são parte da história mineral de Rondônia (Foto: Marco Zero)

Ciro presenciou várias vezes o embarque desses que considera conterrâneos, no antigo aeroporto Caiari. “Os bichinhos seguiam dormindo até o destino, lá nas minerações”, recorda-se.

Também o engenheiro agrônomo pinheiro na assistência técnica rural em Rondônia, ex-deputado estadual Luiz Carlos Coelho Menezes, conheceu a situação. “Quando cheguei aqui, no ano de 1970, meu tio Raimundo era muito ligado ao garimpo; ele era conhecido por Raimundo dos burros.”

Conta Menezes que o seu tio Ormidas trazia burros do Nordeste e vendia para seringalistas do Acre, Amazonas e Rondônia. “E o tio Raimundo participava dessa operação com mais dedicação, e por isso recebeu o apelido.

Naquela ocasião, por trabalhar com garimpo ele tinha muito contato com o pessoal do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM e com o próprio governador, coronel João Carlos Marques Henrique.”

Em síntese: gente importante e animais anônimos abriram campos minerais neste que atualmente é o primeiro produtor de cassiterita no País.

_____________________

NOTA
Marivalda Kariri, f
orrozeira raiz que andou por aqui nos anos1980, gravou 25 discos em seus 60 anos de carreira, entre os quais, “A dança do jumento”. E ficou nisso a homenagem ao animal. Como Rondônia é ingrata!

_____________________

Texto anterior -
  O menino viu - por Montezuma Cruz

Nota de responsabilidade

As opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial deste jornal.

O menino viu - por Montezuma Cruz

Montezuma Cruz*

Menino Vilhena - Kin-ir sem Pires Leal


O garoto que caminhava nos arredores do Centro de Triagem de Migrantes (Cetremi), em Vilhena, não teve dificuldade para ver de perto o cadáver no chão da camionete. Minutos antes circulava pelo local o repórter fotográfico Kim-Ir-Sen Pires Leal, que também se surpreendera com o fato.

Kim aproximou-se e clicou o menino na parte traseira do veículo observando o corpo de um homem atingido pela própria motosserra. Ele trabalhava em derrubadas numa fazenda e após o acidente fatal foi levado para Vilhena. Curioso é que estava de mãos amarradas por uma corda.

Segundo Kim relata, isso aconteceu no início dos anos 1980 durante o movimentado período migratório rumo a Rondônia.

Era comum a ocorrência de acidentes no interior das fazendas no sul do território federal e na região noroeste de Mato Grosso, próxima ao município.

Inquéritos trabalhistas que investigavam situações semelhantes eram demorados, cabendo à Polícia Civil e ao Instituto Médico-Legal, providenciar o sepultamento e o atestado de óbito do "peào."

À falta de perícia técnica no local do acidente valia o depoimento de quem entregava o corpo à autoridade distante muitas vezes mais de duzentos quilômetros.

O Vale do Guaporé ficou muito conhecido pelos acidentes com máquinas, práticas de sevícias, tortura a trabalhadores, e escravidão.
____ 

Publicado originalmente no jornal Cool do Mundo, em Vilhena.


*Chegou a Rondônia em 1976. Em dois períodos profissionais esteve no Acre, norte mato-grossense, Amazonas, Pará e Roraima, a serviço da Folha de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil. Acompanhou a instalação do Centro de Triagem de Migrantes em Vilhena e a chegada dos recursos financeiros da Sudam, Polamazônia e Polonoroeste durante a elevação do antigo território federal a estado. Deu ênfase à distribuição de terras pelo Incra, ao desmatamento e às produções agropecuária e mineral. Cobriu Mato Grosso antes da divisão do estado (1974 a 1977); populações indígenas em Manaus (AM); o nascimento do Mercosul (1991) em Foz do Iguaçu, na fronteira brasileira com o Paraguai e Argentina; portos, minérios e situação fundiária no Maranhão; cidades e urbanismo em Brasília (DF).

------------------

_____________________

Nota de responsabilidade

As opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial deste jornal.

Publicidade