O Ministério Público Federal pediu à Justiça a suspensão imediata do abate de búfalos considerados invasores em três reservas ambientais de Rondônia. A medida atinge uma ação conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, que realiza um projeto experimental voltado à erradicação dos animais.
| Foto - Vinicius Assis/ Rede Amazônica |
O pedido também inclui a realização de consulta prévia, livre e informada às comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais potencialmente afetadas, além da apresentação formal do plano definitivo de controle e erradicação para análise judicial.
A iniciativa de abate integra um projeto que busca enfrentar a presença de cerca de 5 mil búfalos na região. A questão já é alvo de uma Ação Civil Pública movida em 2025 pelo MPF, que cobra a adoção de medidas urgentes para controle da espécie e solicita indenização de R$ 20 milhões por danos morais coletivos, com destinação para ações de reflorestamento.
O processo tramita na 2ª Vara Federal de Ji-Paraná. Em resposta, o ICMBio informou que está cumprindo a decisão judicial e que a pesquisa em andamento tem justamente o objetivo de subsidiar a elaboração do Plano de Erradicação.
O objetivo do projeto piloto é testar o método de erradicação para que seja mais eficiente, mais seguro para as equipes e cause o menor sofrimento possível aos animais. O abate é feito por controladores de fauna, especializados e armados com rifles.
A expectativa é que aproximadamente 500 animais sejam mortos no primeiro momento. A partir disso, os pesquisadores e demais pessoas envolvidas pretendes descobrir, entre outros pontos:
- avaliar a capacidade diária de abate de animais;
- observar o comportamento dos búfalos e as condições ambientais que interferem na operação;
- mapear desafios logísticos e operacionais para aprimorar o planejamento, incluindo equipes, rotas, equipamentos e estratégias de abordagem.
Todas essas características serão usadas para embasar uma estratégia aprimorada para erradicar totalmente os animais da região.
Além disso, uma equipe da Universidade Federal de Rondônia (Unir) está em campo para coletar a maior quantidade possível de material biológico (órgãos, tecidos, amostras sanguíneas ou outras estruturas) dos animais abatidos para subsidiar estudos.
Por que os búfalos estão sendo abatidos?
Como não são nativos do Brasil, os búfalos não possuem predadores naturais. Soltos e se reproduzindo sem controle, eles provocam graves impactos, como a extinção de espécies da fauna e da flora nativas e alteração no curso dos campos naturalmente alagados, que fazem parte da biodiversidade local.
| Foto - Vinicius Assis - Rede Amazônica |
De acordo com o biólogo e analista ambiental do ICMBio, Wilhan Cândido, a erradicação dos búfalos é, no momento, a única alternativa viável para resolver a questão. Como a região é isolada e de difícil acesso, não existe logística possível para retirar os animais vivos ou mortos. Além disso, como se desenvolveram sem controle sanitário, a carne não pode ser aproveitada.
Atualmente, os animais vivem entre a Reserva Biológica (Rebio) Guaporé, a Reserva Extrativista (Resex) Pedras Negras e a Reserva de Fauna (Refau) Pau D'Óleo, no oeste de Rondônia, uma região de encontro entre três biomas: a Floresta Amazônica, o Pantanal e o Cerrado.
As reservas biológicas são a categoria de proteção ambiental mais restritiva em Rondônia. As únicas atividades permitidas nessas áreas são a educação ambiental e pesquisas científicas. No entanto, algumas famílias ainda vivem nesses locais, pois já residiam ali antes da criação das unidades de conservação.
"É um ambiente único, com várias espécies endêmicas [nativas] e a presença do búfalo vai levar à extinção de várias delas. Algumas espécies que a gente só tem registros aqui, sejam elas residentes ou migratórias", explica o biólogo e analista ambiental do ICMBio, Wilhan Cândido.





