Montezuma
Cruz*
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| 1975: a pé, o presidente Ernesto Geisel caminha próximo a populares, na Praça Getúlio Vargas em sua visita a Porto Velho; atrás dele, o governador Guedes (Foto Presidência da República) |
Duas décadas após deixar o cargo, o ex-governador do extinto Território Federal de Rondônia, Humberto da Silva Guedes caminhava lentamente pelo terreno da sede do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, em Planaltina (DF), quando se deparou com este repórter. “Eu me lembro do senhor. Tinha algumas coisas a dizer, mas vocês eram ‘mancheteiros’ e eu não desejava atritos com o presidente”, disse. Guedes e sua esposa, dona Gilsa, participavam da confraternização denominada “Talentos da Primavera”, em 2000.
Guedes, coronel do Exército, falecido quinta-feira num hospital de Brasília aos
103 anos, era pai de Beatriz Guedes e sogro do médico Edison Saraiva Neves,
ambos sócios do Centro Espírita, razão por que lá esteve, a convite deles.
Construtor
das primeiras cidades ao longo da BR-364, das primeiras estradas
intermunicipais, incentivador dos projetos do Instituto Nacional de Colonização
e Reforma Agrária (INCRA), Humberto Guedes nunca foi oficialmente reconhecido.
Mesmo com uma série de realizações, seu nome não foi dado a nenhuma rua, creche
ou escola.
Conversando brevemente
a respeito de seu governo (1975-19779), ele frisava que fora nomeado por
decreto do então presidente da República, general Ernesto Geisel e, se fosse
relatar inquietudes e insatisfações em seu governo “favoreceria possível animosidade”.
Seu sucessor, coronel Jorge Teixeira de Oliveira, fora nomeado pelo general
João Baptista de Oliveira Figueiredo.
“O senhor
conhece hierarquia? Eu tinha que respeitá-la”, ele declarava. No entanto, ao deixar
o governo territorial, desligando-se do Partido Democrático Social (PDS),
Guedes demonstrava-se insatisfeito com Teixeirão.
Deixou o
cargo em 2 de abril de 1979, assumindo pouco depois o cargo de superintendente
administrativo da Telebras. Na carta pública denominada “Aos amigos de Rondônia”,
em 12 de outubro de 1982, ele se queixava de Teixeirão, a quem acusava de
“detratar” a sua administração.
Desfiliava-se
do PDS, partido sucedâneo da antiga Aliança Renovadora Nacional (Arena): “Não
poderia continuar em um partido (PDS), cujos dirigentes em Rondônia tratam
aqueles que me apoiaram como adversários políticos” – justificava-se.
O principal
descontentamento de Guedes foi a restrição imposta pelo partido ao coronel
Carlos Augusto Godoy, ex-comandante de fronteira do Acre e Rondônia. “Ele só
ingressou na oposição (MDB), porque foi rejeitado pelo PDS”, escrevia Guedes.
“Ao mesmo
tempo em que me chama de irmão, reúne-se amigavelmente com todos aqueles que
foram ferrenhos opositores à minha administração, para contemplá-los com
importantes cargos na administração e no comando do PDS”, queixava-se Guedes.
Incisivo,
dizia desconhecer as razões de o sucessor tratá-lo como adversário. “Nunca tive
pretensões políticas ou outras aspirações que representassem ameaça às suas
grandes ambições”, continuava.
Para Guedes,
a atitude de Teixeira teria impossibilitado, por exemplo, as candidaturas do
ex-governador João Carlos Mader, do ex-prefeito de Guajará-Mirim, Rigomero da
Costa Agra, e do deputado Antônio Morimoto, que trocara São Paulo por Rondônia.
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| Coronel Humberto Guedes, o governador que preparou Rondônia para ser mais um estado brasileiro (Arquivo Museu da Memória Rondoniense) |
“Chá de
cadeira”
Entre as
indisposições que conseguiu evitar durante os quatro anos de governo no
território, está uma audiência que fora concedida em Brasília pelo então ministro
da Indústria e Comércio, Ângelo Calmon de Sá.
Guedes quis
apresentar-lhe um plano para o fomento cafeeiro, valendo-se da construção de
vilas rurais, do apoio o INCRA, da Embrapa, e da antiga Associação de Crédito e
Extensão Rural de Rondônia (Aster).
Depois de um
‘chá de cadeira’, Calmon, que também havia dirigido o Banco Econômico S/A, o
dissuadia, alegando que Rondônia deveria se contentar com a riqueza mineral. “Vocês
têm enorme riqueza metal e mineral, ele me dizia, e eu retornei para Porto
Velho com algum desânimo”
O governador
percebeu que o ministro baiano defendia mesmo os interesses de seu estado. Nessa
mesma ocasião, o grupo Fischer em Ouro Preto do Oeste preparava sua primeira
exportação de cacau para Hanover (Alemanha), missão confiada ao agrônomo Assis
Canuto, executor do Projeto Integrado de Colonização Ouro Preto.
Na área
cafeeira, Guedes já contava com o entusiástico apoio da Embrapa, em cuja
Unidade trabalhavam, entre outros, os agrônomos pesquisadores William Curi e
Wilson Veneziano.
Para o
cacau, o grupo Fischer havia conseguido financiamento da Superintendência de
Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), com o objetivo de beneficiar as colheitas dentro
de Rondônia. Em meio a batalhas burocráticas nos escalões do poder, em
Brasília, o então presidente do Conselho Consultivo dos Produtores de Cacau,
Humberto Salomão Mafuz entregava documento ao presidente Geisel, condenando
investimentos em cacaueiros rondonienses por causa do fungo Crinipellis
perniciosa (vassoura de bruxa).
Rondônia no
período Guedes
► O
secretário de agricultura Edgar Cordeiro instalou em Costa Marques, em1976, o
primeiro berçário de tartarugas e tracajás da Amazônia Ocidental, conservando assim
essas espécies de quelônios.
► Guedes
criou núcleos, entre os quais, os de Apoio Administrativo e da Secretaria de
Finanças, divididos provisoriamente entre o titular, Alexandre Ferreira Lima
Neto, e o auxiliar, Arthur de Mello Júnior. O major Arthur morreu na explosão
de um avião Minuano em Jaru.
► Guedes
transformou a Guarda Territorial em Polícia Militar e construiu o quartel da
corporação. Construiu ainda a sede do Instituto Médico-Legal, o primeiro prédio
do Tribunal de Contas, e reestruturou a segurança pública. Reformou o Palácio
das Secretarias (antigo Porto Velho Hotel) na Capital e iniciou as obras da
Esplanada das Secretarias, no Bairro Pedrinhas. Construiu o prédio do Fórum Rui
Barbosa, primeira sede do futuro Tribunal de Justiça e concluiu o projeto da
hidrelétrica de Samuel.
► Promoveu em 1976, com o Ministério de Minas e Energia, o 1º Congresso
Brasileiro do Estanho, realizado numa sala do Colégio Carmela Dutra.
► De 1975 a
1979, dentro do II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), o território
recebeu o Polamazônia (Programa de Polos Agropecuários e Agrominerais da
Amazônia), cujo objetivo foi criar polos agrícolas regionais que permitissem
fixação populacional nas áreas de mineração e de interesse estratégico,
formando zonas de integração para a concentração de capitais.
► Em meados
dos anos 1970, o rebanho bovino de Cacoal ultrapassava 6 mil cabeças. Nas áreas
do Projeto de Colonização Gy-Paraná (na época escrito com G), próximas àquele
município havia 1,1mil cabeças; ao longo da BR-364, 3,8 mil, e nos finais de
linha, 1,45 mil. Rondônia já criava gado mestiço nelore, gir e indu-Brasil, com
matrizes trazidas dos estados de Mato Grosso e Minas Gerais. Ainda não havia
exportação.
► A produção
de leite in natura era muito pequena, de 1,5 mil litros por dia. Leite em pó
vendia bem naquela cidade e em todas as outras do território. Hortifrútis
vinham de Presidente Prudente (SP) e Campo Grande (MS), distribuídos por caminhões
da empresa Takigawa, que atuava aqui e no Acre.
► Era de 40
cruzeiros, com alimentação, o valor da diária do trabalhador braçal no
território, e de 50, sem alimentação; na zona rural, 30 e 40 cruzeiros
respectivamente.
(Continua)...
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*Chegou a Rondônia em 1976. Em dois períodos profissionais esteve no Acre, norte mato-grossense, Amazonas, Pará e Roraima, a serviço da Folha de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil. Acompanhou a instalação do Centro de Triagem de Migrantes em Vilhena e a chegada dos recursos financeiros da Sudam, Polamazônia e Polonoroeste durante a elevação do antigo território federal a estado. Deu ênfase à distribuição de terras pelo Incra, ao desmatamento e às produções agropecuária e mineral. Cobriu Mato Grosso antes da divisão do estado (1974 a 1977); populações indígenas em Manaus (AM); o nascimento do Mercosul (1991) em Foz do Iguaçu, na fronteira brasileira com o Paraguai e Argentina; portos, minérios e situação fundiária no Maranhão; cidades e urbanismo em Brasília (DF).
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