O problema não é o que a IA já fez — é o que ela está prestes a fazer, enquanto boa parte dos profissionais ainda a trata como curiosidade tecnológica.
O aviso soou como um balde de água fria num debate que reuniu três dos gestores mais experientes do mercado financeiro brasileiro e internacional: a inteligência artificial não vai atacar primeiro os trabalhadores de menor renda. Vai atacar os de maior salário — advogados, contadores, analistas, banqueiros. E está atacando agora, em velocidade que a maioria das pessoas ainda não percebeu.
A provocação partiu de Paulo Passoni, managing partner da Valor Capital Group, com sede em Nova York, e ecoou pela conversa sem encontrar contestação. Para ele, o problema não é o que a IA já fez — é o que ela está prestes a fazer, enquanto boa parte dos profissionais ainda a trata como curiosidade tecnológica.
“Ninguém percebeu que as ferramentas estão melhorando em uma velocidade absurda, muito rápida”, afirmou. “O que você achava que era IA hoje já é um negócio bem diferente.”
O debate aconteceu no programa Stock Pickers Aftermarket, apresentado por Lucas Collazo. Além de Passoni, participaram Andrew Reider, sócio e gestor do WHG Long Biased, e Christian Keleti, CEO da Alpha Key. Os três discutiram o impacto da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho, sobre os modelos de negócios do setor de tecnologia e sobre as estratégias de investimento num cenário de ruptura acelerada.
“Todo tipo de trabalho intelectual vai mudar”, disse Passoni. Na sua avaliação, qualquer função que consuma tempo sem exigir criatividade genuína já é candidata à automação. Pesquisa setorial, relatórios analíticos, triagem de informações, tarefas jurídicas repetitivas — tudo isso, segundo ele, pode ser feito hoje por ferramentas disponíveis ao público.
“O que ainda terá valor é a capacidade de interpretar resultados, pensar no futuro e raciocinar de forma criativa. Mas aquele trabalho mais básico — garimpar dezenas de fontes para reconstruir o que aconteceu no passado — esse já é, hoje, inteiramente automatizado.”
O sonho do mercado financeiro virou o pior emprego
O sinal mais concreto do que está por vir veio de dentro do próprio sistema financeiro. Passoni citou declaração recente de Jamie Dimon, CEO do JP Morgan, sobre a possibilidade de adotar semana de trabalho de quatro dias para parte dos funcionários do banco — consequência direta dos ganhos de produtividade gerados pela automação.
Para quem acompanha o setor, a imagem é simbólica: se o maior banco do mundo começa a reduzir sua necessidade de mão de obra qualificada, o movimento é irreversível.
Outro caso concreto veio da Block — empresa de pagamentos fundada por Jack Dorsey, criador do Twitter, e anteriormente conhecida como Square. A companhia anunciou a redução de quase metade de seu quadro, de mais de dez mil para menos de seis mil funcionários.
O detalhe que chamou atenção dos gestores: o corte não foi motivado por crise financeira, mas por ganhos de eficiência proporcionados pela inteligência artificial. “Esse é o começo”, disse Passoni.
A ironia, apontada por ele, é que as carreiras historicamente associadas ao prestígio e à alta remuneração são justamente as mais vulneráveis nessa transição. “Todo mundo achava que trabalhar nesse tipo de coisa era o trabalho do sonho. Agora é o pior trabalho que você pode fazer.”
A lógica é direta: quanto mais o trabalho depende de processar informação e produzir documentos estruturados, mais facilmente uma máquina o substitui.
Reider traçou um paralelo histórico para dar dimensão ao fenômeno. Assim como a globalização, a partir dos anos 1990, exportou empregos industriais dos países ricos para China e Leste Europeu, a IA agora faz o mesmo com os trabalhadores de escritório.
“A IA tem um monte de trabalhador muito barato, que trabalha 24 horas por dia, não reclama, não quer semana de quatro dias, e vai substituir o contador, o advogado, o banker”, disse.
Para o gestor, o grau de incerteza gerado por essa ruptura só encontra paralelo em duas crises recentes: o colapso do mercado imobiliário americano em 2008 e a pandemia de Covid-19. (Infomoney)






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