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Antes do Estado, a escravidão; horrores vistos pelo repórter - por Montezuma Cruz (*)

A prática do trabalho em condições análogas à escravidão em Colorado do Oeste, Cerejeiras, Chupinguaia e Vilhena estava longe de ser um fato novo, constatei em 1981 ao conversar com o padre salesiano Ângelo Spadari, na Casa Paroquial. Ele me contava da rotineira ida de trabalhadores para as fazendas da região, alimentada diariamente por 'gatos' originários de Mato Grosso ou de estados do sul.

Foto: Fome na praça - 1985 -  M. Cruz/Reproduções do JB

'Gato' era o apelido da pessoa que intermediava mão de obra rural, maiores ou menores de idade. Vinte anos depois, numa vultosa operação na região de Vilhena a Polícia Federal libertou de uma só vez cerca de mil trabalhadores escravizados, a maioria deles analfabetos e arregimentados por esses 'gatos', num vaivém muito comum na extensão de terras entre essa parte rondoniense e a região do Aripuanã mato-grossense.

Interessante é que apesar da modernidade que trouxe máquinas e potentes motoserras para duas derrubadas, os 'gatos' não deixaram de existir.

Fome na praça 1985 - M. Cruz/Reproduções do JB

Talvez ingenuamente, uma juíza recém-chegada ao cargo na Vara do Trabalho lá por 2010 ignorasse a situação. A magistrada argumentava assim: “Quando o patrão conduz o empregado a um supermercado e o condiciona ao trabalho para pagar os utensílios e alimentos isso configura um adiantamento”. “Que deve ser descontado no futuro”, defendia.

Baseava-se na lógica dos seringais amazônicos. Na região onde ocorreram os piores casos de “escravidão branca” nos anos 1970 e 80, a juíza agradou e desagradou. No entendimento dela, essa degradação humana “não mais existia no Brasil”. Saísse do seu gabinete e viajasse pelos cartões rondonienses, notaria os horrores.

Mas insistia: "Escravidão, só a dos negros, no Brasil Colônia."  
Cerejeiras, maio de 1986. Durante alguns meses as fazendas São José e Cerejeiras não pagavam salários para duzentas pessoas mantidas sob sevícias e tortura. Esse era o contingente que apanhava de cipó e se sujeitava a mutilações com motosserras enquanto desmatava ilegalmente.

Este repórter viajou para lá, a fim de constatar a situação denunciada semanas antes pela Igreja Católica.

Fome na praça, 1985 - M.Cruz/Reproduções do JB

Multados pela Justiça, os donos mandaram libertar os peões, mas eles ainda foram vítimas de capatazes raivosos. Saíram das fazendas a pé e alguns baleados nas pernas e nas costas.

Situação semelhante também ocorreu nas Fazendas Gauchinho, Antonio José, Santa Ana e Bordon, de onde foram libertados dezenas de peões.  Encontrei-os esfomeados, comendo em marmitas na pracinha de Cerejeiras. Ali estavam rapazes com solas e calcanhares dos pés cortados, para que não fugissem (!).

O novo estado não vivia o Brasil Colônia, período em que os negros eram identificados pela dentição, mas se vergava à tortura no meio do mato, longe dos olhos de quem deveria impedi-las. A escravidão camuflada ficou conhecida por “trabalho forçado”. Ouvi o promotor de Justiça Osvaldo Luís Araújo e o delegado de polícia, Rivaldo Silva.

Este preferia lavrar o inquérito com o termo “semiescravidão”.
Papel triste e ao mesmo tempo risível desempenhava o destacamento da PM em Cerejeiras: o soldado Riva oferecia-se para convencer os peões a procurar outros patrões, ali mesmo nos quartos de pensões ou na rodoviária de Vilhena, às barbas da lei.

Sem disfarçar suas intenções, o gato Eurides Gonçalves colocava-se ao lado dele para informar que precisava de uns 70 homens para desmatar uma área numa desconhecida fazenda na região do Juruena, em Mato Grosso. Vilhena, o portão de entrada ao novo estado, tornava-se o polo concentrador da mão-de-obra contratada irregularmente para a derrubada da floresta.  

Nem aquela porteira colocada pelo governador Teixeirão para a triagem de migrantes impediu que centenas deles fossem poupados daqueles horrores.

(*) Originalmente publicada no jornal eletrônico Cool do Mundo, de Vilhena.

*Chegou a Rondônia em 1976. Em dois períodos profissionais esteve no Acre, norte mato-grossense, Amazonas, Pará e Roraima, a serviço da Folha de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil. Acompanhou a instalação do Centro de Triagem de Migrantes em Vilhena e a chegada dos recursos financeiros da Sudam, Polamazônia e Polonoroeste durante a elevação do antigo território federal a estado. Deu ênfase à distribuição de terras pelo Incra, ao desmatamento e às produções agropecuária e mineral. Cobriu Mato Grosso antes da divisão do estado (1974 a 1977); populações indígenas em Manaus (AM); o nascimento do Mercosul (1991) em Foz do Iguaçu, na fronteira brasileira com o Paraguai e Argentina; portos, minérios e situação fundiária no Maranhão; cidades e urbanismo em Brasília (DF).

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  O jumento é nosso irmão - por Montezuma Cruz*

Nota de responsabilidade

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O jumento é nosso irmão - por Montezuma Cruz*

Burros e jumentos vindos do Ceará viajavam anestesiados (Foto: Gilson Costa /Biblioteca IBGE)  - Gente de Opinião
Burros e jumentos vindos do Ceará viajavam anestesiados (Foto: Gilson Costa /Biblioteca IBGE)

Em meio século de Rondônia, o jornalista cearense Ciro Pinheiro de Andrade viu a saga da cassiterita. Seu olhar sociológico traz para análise histórica o trabalho duro de animais de carga para garimpeiros e multinacionais do minério de estanho no período 1960-1970

Por óbvios motivos, as Redações de jornais prestavam mais atenção a balanços financeiros de fim de ano, volume de estanho apurado e enviado à Usina Siderúrgica de Volta Redonda, e nas festas promovidas pelas empresas, geralmente com almoços e jantares aos donos de jornais, rádios e TV.

A pauta jornalística cometia ainda o pecado de não escalar repórteres para acompanhar o funcionamento de máquinas gigantes que resgavam a floresta para extrair minério. Muito menos se interessava por burros e jumentos que suportavam no lombo o peso dos sacos carregados com cassiterita apurada.

Tampouco historiadores disseram, até então, algo a respeito. O capital atropela a própria literatura, escondendo o heroico esforço animal no quintal e na floresta explorada por multinacionais.

Quem analisar edições de jornais e revistas daquele período irá notar que as reportagens mostravam: aviões desaparecidos, indígenas, formação de vilas, o trem da Madeira-Mamoré, possíveis jazidas de diamantes, e a presença dos soldados do Exército em missões amazônicas. Burros e jumentos, se quiserem, só em fotos raríssimas de arquivos pessoais ou da Biblioteca do IBGE.

Jornalista Ciro Pinheiro, cearense, viveu décadas em Porto Velho (Foto: Gente de Opinião)  - Gente de Opinião
Jornalista Ciro Pinheiro, cearense, viveu décadas em Porto Velho (Foto: Gente de Opinião)

Para Ciro Pinheiro, o burro e o jumento podem também ser vistos como pioneiros no Território Federal de Rondônia. Antes do Hino do Estado eles já eram destemidos pioneiros, eu concluo.

Algumas décadas atrás, jumentos ‘importados’ do Ceará, depois de anestesiados, eram amontoados em avião taxi aéreo e vinham parar nos garimpos do município de Porto Velho, cuja extensão era ainda mais gigantesca que os seus 34mil Km². “Verdadeira saga”, observa o jornalista.

Aqui, os animais eram usados pelas empresas mineradoras no transporte de cassiterita. “Somente o burro e o jumento, com suas colunas horizontais tinha condições de transportar o pesado minério de estanho, da lavra no meio da floresta, até o acampamento”, relata o jornalista.

Animais de carga são parte da história mineral de Rondônia (Foto: Marco Zero)  - Gente de Opinião
Animais de carga são parte da história mineral de Rondônia (Foto: Marco Zero)

Ciro presenciou várias vezes o embarque desses que considera conterrâneos, no antigo aeroporto Caiari. “Os bichinhos seguiam dormindo até o destino, lá nas minerações”, recorda-se.

Também o engenheiro agrônomo pinheiro na assistência técnica rural em Rondônia, ex-deputado estadual Luiz Carlos Coelho Menezes, conheceu a situação. “Quando cheguei aqui, no ano de 1970, meu tio Raimundo era muito ligado ao garimpo; ele era conhecido por Raimundo dos burros.”

Conta Menezes que o seu tio Ormidas trazia burros do Nordeste e vendia para seringalistas do Acre, Amazonas e Rondônia. “E o tio Raimundo participava dessa operação com mais dedicação, e por isso recebeu o apelido.

Naquela ocasião, por trabalhar com garimpo ele tinha muito contato com o pessoal do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM e com o próprio governador, coronel João Carlos Marques Henrique.”

Em síntese: gente importante e animais anônimos abriram campos minerais neste que atualmente é o primeiro produtor de cassiterita no País.

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NOTA
Marivalda Kariri, f
orrozeira raiz que andou por aqui nos anos1980, gravou 25 discos em seus 60 anos de carreira, entre os quais, “A dança do jumento”. E ficou nisso a homenagem ao animal. Como Rondônia é ingrata!

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