Montezuma Cruz*
No começo do ano, quando a
árvore murici floresce, os Zorós preparam o roçado na mata, após pequenas
derrubadas. Muitas estrelas grandes visíveis no céu indicam o começo do período
frio, o fim da chuva e a continuidade do roçado. Para eles, a explicação da
mudança climática vem desde os mais velhos, que notaram a fumaça da queimada
deixando o ar quente. “Tudo isso vem acontecendo por causa do jeito de viver do
povo não-indígena que desmata e queima para criar gado e plantar grandes roças
de soja” – lamentam sem demonstrar dúvidas.
O conteúdo desse calendário faz parte da cartilha “Nós, Pangyjég Zoró” (Nossa terra e s mudanças climáticas), de 2019, fruto de oficinas para formação de mediadores culturais no Corredor Etnoambiental Tupi Mondé.
Segundo a percepção Zoró, a
consequência do desequilíbrio resultou em chuvas fortes, com inundações, onde
chovia pouco. E onde a temperatura era amena, se tornou alta ou muito frias.
Os autodenominados Zorós habitam
sua terra com 355,78 mil hectares no (demarcados em 1991), no município de
Rondolândia, região noroeste de Mato Grosso, divisa com Rondônia, próxima a
Cacoal, fazendo divisa com a T.I. 7de setembro, dos Paiter Suruí.
No final do ano, com chuva, eles
coletam castanha, fazem rituais religiosos e colhem milho. “Um período longo” –
aponta a cartilha.
Os antigos transmitiram às novas
gerações que anteriormente (na fase de ocupação de Rondônia e do noroeste
mato-grossense) não existia fenômeno climático “tão forte”. “Aqui viviam
diversos povos indígenas e cada qual cuidava da natureza em seu território.
Nos anos 1970, Zorós e Paíter
Suruí tiveram conflitos e se enfrentaram. A razão mostrou-lhes que poderiam
unir-se contra usurpadores de seu território. E assim o fizeram: parte deles
concentrou-se em Rondolândia, onde convive em paz com antigos líderes
guerreiros Paiter, entre eles, Ipatara, que tem mais de 70 anos de idade.
Juntos, participam de assembleias estaduais indígenas.
“Temos medo
de ficar como brancos”
“Pensamos em nosso povo, temos
medo de ficarem como brancos”, diz o professor Waratan Zoró. Ele propõe que
todos vivam bem com suas roças obtendo autonomia.
“Queremos que a natureza não seja destruída, que a floresta
seja deixada inteira, porque assim muitos animais vão viver e se reproduzir. Se
nosso povo deixar invasores entrarem, eles irão matar bichos em vez do povo
caçar e comer” – apela Waratan.
“Hoje vivemos bem com os outros
povos, antes éramos rivais, hoje somos amigos”, reconhece.
O professor gostaria que no
futuro o seu povo conseguisse se alimentar e vender seus excedentes, algo que
já ocorre os Cintas-largas que comercializam castanhas, e os Paiter que
negociam café orgânico via associação cooperativa.
“Cuidando do estudo (educação)
andaremos do lado da outra cultura. Temos que cuidar do estudo, ser bilingues;
é muito bom entendermos nossa cultura e as outras, devemos entender, comportar
e analisar o que é bom e o que é ruim nas culturas diferentes. Não queremos que
o nosso povo perca a sua língua” – acrescentou.
Sinais da
natureza, segundo os antigos
Batráquios – O sapo Beab avisa a chegada das
primeiras chuvas. Começamos a plantar.
Insetos – Txivek, uma pequena e comprida cigarra,
quando voa rasante pela aldeia, é porque tem bicho gordo na mata. Ela “carrega
a banha” e coloca nos animais. O canto do gafanhoto acompanha a seca.
Lua – Quando acontecia eclipse na lua é sinal que
viria muito sangue e mortes. A lua deitada no céu significava que alguém da
comunidade iria falecer. Mulheres e meninas acompanhavam a posição da lua,
sabiam que iriam ganhar nenê, e as meninas que iriam ficar menstruadas. Um
círculo em volta da lua significava que haveria guerra e que a perderiam. Todos
ficavam em desespero e atentos esperando o inimigo chegar.
Estrelas – Djap Txibô, a estrela cadente, quando
aparece, é porque alguém vai aparecer para guerrear. Então, se mudava a aldeia
de lugar. Zoika Tia, a estrela, quando muda de lugar no céu, é verão. Quando as
Plêiades aparecem no meio do céu, é porque vai chover. Elas giram e somem.
Aparecem e desaparecem para contar o tempo. A Estrela Dalva (planeta Vênus)
pertinho da lua significa que haveria casamento. A Estrela Dalva distante da
lua era aviso que recém-casados não se amam e que haveria separação.
Pássaros – Existe um tipo de rolinha que quando canta
anuncia ao Povo Zoró o início da seca. Quando a chuva parou em maio, a rolinha
nem cantou. Pelo canto do passarinho no período certo, o Povo Zoró sabia quando
ia chover. As pessoas levantavam prestando atenção em quantas vezes o
passarinho cantava naquele momento. Quando ele cantava uma, duas ou três vezes,
elas sabiam que iria chover em até três dias.
Plantas – As flores de urucum e de murici avisam que
o frio está chegando.
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Nota de responsabilidade
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