Faltam salas de aula adaptadas e atendimento individualizado.
O analista de sistemas Érico Ribeiro é pai de duas meninas. A filha mais velha, Milena, 15 anos, foi diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista quando tinha quatro anos de idade. Ele procurou a Associação de Amigos do Autista (AMA), em Salvador, onde ele relata ter se sentido bem acolhido pelos profissionais.
Escritor Rodrigo Tramonte à esquerda da foto, apresentadora Fátima Bernardes ao centro e Andrea Monteiro diretora da ONG Autonomia à direita. Foto acervo pessoal.
Milena frequenta a AMA no turno
matutino e, à tarde, vai para a escola estadual onde cursa a 8ª série do ensino
fundamental. “Quando minha filha chegou na AMA tinha muita inquietação no seu
comportamento. Lá, ela foi alfabetizada e hoje lê pequenas frases. A ajuda tem
sido fundamental para o desenvolvimento dela”, diz o pai orgulhoso. No entanto,
ele aponta a carência de profissionais capacitados para atender às demandas
especializadas do indivíduo com o espectro autista.
Erico com a esposa Carla e as filhas Milena,15 anos, e Isabela, 12. Foto acervo pessoal.
“A relação do professor com o aluno
com TEA é de um para um, ou seja, um professor para cada aprendiz porque cada
pessoa com o espectro exige atividades direcionadas para a sua necessidade.
Infelizmente, hoje, onde a Milena foi alfabetizada está faltando profissionais
para lidar com a demanda. São 91 seres humanos que dependem desse apoio na
associação para continuar se desenvolvendo. Diante da falta
de manutenção no quadro de professores da rede estadual que atende à AMA, a minha
filha, assim como seus colegas, está com prejuízo na continuidade do seu
aprendizado”, desabafa o pai. [Veja aqui o vídeo].
Assim como o analista, a Juíza do
Trabalho Substituta, Zilah Ramires Ferreira, comunga desse sentimento de
carência de apoio para oferecer melhor desenvolvimento educacional às pessoas
com TEA. Ela é mãe do Caio, 15, e da Eduarda, 9. No primeiro ano de vida do
filho mais velho, que hoje está no 7º ano do ensino fundamental, em uma escola
particular na cidade de São Paulo, Zilah percebeu que o desenvolvimento dele
era diferente. Atraso importante na fala, perda de habilidades já adquiridas,
irritabilidade e dificuldades sensoriais foram sinais de alerta para a família.
“Sinceramente, sou mais feliz depois que me tornei mãe do Caio e da Duda e isso
não significa que temos uma vida fácil, sem altos e baixos”, pontua.
Até o diagnóstico do Transtorno do
Espectro Autista foram seis longos anos acreditando tratar-se de um distúrbio
específico da fala, assim como distúrbio específico motor e TDAH. “Logo após o
segundo aniversário, iniciamos as pesquisas através de exames físicos e de
imagens e todos sempre foram absolutamente normais. Assim é importante que se
saiba que, em regra, o autismo é um diagnóstico clínico”, alerta a mãe.
A juíza acredita que ainda não
encontrou o modelo ideal de educação para o filho. Em sua visão, a cada etapa
existe uma série de desafios, que nunca são enfrentados com um único recurso e
em um só lugar. Dentre as dificuldades encontradas para promover um adequado
desenvolvimento educacional de pessoas com TEA, Zilah cita a necessidade de
atender as características individuais do indivíduo como as dificuldades
sensoriais, de concentração e de socialização. Ela elenca, ainda, as questões
relacionadas ao ambiente escolar: “salas de aula lotadas; material apostilado;
barulho; multiplicidade de professores e de salas, o que exige o deslocamento entre
os ambientes a cada aula; falta de profissionais especializados e de
cuidadores”, enumera a mãe.
A metodologia de ensino, na visão da
mãe do Caio, também é um dos problemas que podem ser superados. Nesse sentido,
ela alerta para as aulas longas, utilização de poucos recursos visuais e
critérios pouco individualizados de ensino que dificultam o processo de
aprendizado dos estudantes com TEA.
Contudo, apesar dos percalços, a
relação com o filho Caio a inspirou a escrever o livro O Menino Azul e a
Família Colorida, que surgiu com objetivo de ser um recurso de comunicação
entre mãe e filho. “Quando mostrei para a família, tive a grata surpresa de
descobrir que esse recurso poderia ser aproveitado por outras famílias que
viveram, vivem ou viverão essa mesma história e podem contar com um final
feliz, não como resultado, mas como aceitação, pois a moral da estória é que a
vida e o amor que nos une nos tornou perfeitos um para o outro”, justifica a
juíza.
ONG Autonomia ajuda quem precisa de
apoio
Em Santa Catarina, a professora e
mestre em desenvolvimento
humano Andrea
Monteiro, 54 anos, se disponibiliza como pode para ajudar àqueles que necessitam
de amparo. À frente da ONG Autonomia, um dos seus projetos, o Artistas
Autistas, ajuda a dar visibilidade aos talentos artísticos de pessoas
diagnosticadas com o Transtorno do Espectro Autista.
Mãe de um menino adotivo, indígena,
de 2 anos, Andrea não possui relação familiar com o autismo, mas abraçou a
missão de buscar melhorias no acesso à educação e qualidade de vida para
pessoas com o diagnóstico.
“Não vejo mais corpo, vejo almas
caminhando numa força extraordinária que nenhum físico suporta”, diz Andrea ao
se referir à força daqueles que cuidam de pessoas com necessidades especiais.
Para ela, a união é o caminho para ajudar quem precisa de apoio e transformar a
sociedade.
Consciente do seu papel, Andrea guia
sua vida com foco no coletivo. “Não consigo ver o mundo só para um, vejo para
todos. Infelizmente, a sociedade criou microgrupos, cada um defendendo uma
causa e ninguém consegue dialogar, cada grupo se torna um individual e não se
relaciona. Precisamos ser uma sociedade com voz uníssona, o direito é de
todos, somos todos filhos da terra!”, ressalta.
Juntamente com o escritor Rodrigo Tramonte, diagnosticado com TEA, Andrea produziu em 2015 o livro “Humor Azul - o lado engraçado do autismo”, que ganhou a admiração de famosos como o escritor e cartunista Maurício de Sousa. Pelo seu conteúdo didático, o livro se tornou um “best seller” e é recomendado às escolas e famílias por médicos considerados referências no assunto. Tamanha aceitação, rendeu um belo fruto: o livro vai virar filme.
Andrea conta que o sonho do escritor
Rodrigo era conhecer o Maurício de Sousa, criador da Turma da Mônica. Para quem
não sabe, em 2003 a Turma da Mônica apresentou André, personagem que
chegou às histórias em quadrinhos para representar as pessoas com Transtorno do
Espectro Autista.
“Entramos em contato com Maurício
para apresentar sugestões para o personagem comunicar melhor o que é o autismo.
Simplesmente, ele falou que precisava nos ouvir. Foi um papo maravilhoso entre
nós e a equipe dele. O Maurício é incrível, tem muita escuta, é um cidadão
brasileiro de valor, que merece muito respeito”, relembra a professora sobre os
momentos de encontro que teve com o cartunista.
Onde tem uma criança com dificuldade
para se comunicar, socializar e desenvolver habilidades motoras existe uma vida
que, mesmo com limitações, possui capacidades incríveis para serem
desenvolvidas. Muitas delas, por volta dos quatro anos de idade, recebem o
diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), que no Brasil somam cerca
de dois milhões de pessoas, segundo dados do Center of Deseases Control and
Prevention (CDC). No aconchego do lar, famílias lutam pelo direito à educação básica para essas crianças. Na busca por
dignidade e qualidade de vida para seus filhos, os pais também reaprendem a
olhar seu entorno com mais amorosidade e paciência.
Fonte: Agência Educa Mais Brasil.





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