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Paulinho, atleta de Exu, faz gol e usa a bola para plantar respeito

Comemoração de Paulinho, sacando uma flecha imaginária das costas, foi a imagem mais poderosa da estreia brasileira e aqueceu debate sobre cultura religiosa

Paulinho, meia-atacante de 21 anos, entrou em campo pela seleção brasileira com 16 minutos restantes no tempo regulamentar. O Brasil, com um homem a mais, vencia a Alemanha por 3 a 1 e dominava amplamente o confronto, mas logo tomou o segundo gol. 



O componente dramático que a partida ganhou repentinamente durou alguns minutos e foi dissolvido na única chance que Paulinho teve de chutar a gol. 4 a 2 no placar. Naquele momento, Paulinho, antes mesmo de fazer a comemoração em homenagem ao seu orixá, que já nasceu clássica, já dialogava com sua ancestralidade.


Oxóssi, na letra mitológica sobre si, teve só uma flecha para salvar o seu reino, e assim o fez, acertando o coração de um pássaro, a serviço de feiticeiras, que trazia diversas mazelas. Enquanto outros caçadores tiveram centenas de flechas à disposição e não conseguiram, Oxóssi só usou uma. Uma flecha, uma finalização. Os filhos de Oxóssi são munidos, na interpretação do encantamento religioso, de infalível mira. Por isso, antes mesmo de Paulinho sacar uma flecha imaginária das costas e lançá-la com o seu Ofá (arco e flecha), a estatística fria do jogo já se enamorava com a leitura mística que protege Paulinho.


Foram especialmente a mãe, a vó e a tia de Paulinho que sentiram cedo a conexão da criança que tinham na família com Oxóssi e Iemanjá. Não existe, então, propriamente uma data cronológica de iniciação e aproximação do atual atleta olímpico com a sua fé, já que a compreensão religiosa indica que é que ela quem escolhe as pessoas e elege seus filhos, e não o contrário. Paulo Sampaio, o pai de Paulinho, em conversa com a CNN, falou sobre orgulho. "Meu filho, apesar de tão novo, está mostrando que o Brasil tem jeito e que consegue tocar o coração das pessoas dando visibilidade para a sua verdade, mostrando a realidade e a filosofia de vida que as pessoas da religião de matriz africana possuem". 


Futebol de Cristo

Se a flecha olímpica do gol de Paulinho está na prateleira das comemorações incomuns, isso se dá por contraste com um futebol brasileiro cotidianamente associado a outros cultos. Jogadores de grandes clubes e seleções recebem visitas frequentes de pastores e padres em hotéis e concentrações, atletas que marcam 3 gols costumam pedir músicas de culto evangélico na tradicional programação de TV, e a mais repetida comemoração de gol no país envolve os dedos erguidos para o céu e um grupo de jogadores ajoelhados, agradecendo a Deus pelo gol com o pacote gestual mais naturalizado que conhecemos. Deus, aliás, consta massivamente nas entrevistas dos jogadores.


O historiador Luiz Antonio Simas falou com a CNN sobre os efeitos desse contraste. "A cena da comemoração do Paulinho foi especialmente relevante no sentido da afirmação de todo um modo de vida que vem sendo atacado pelo racismo religioso brasileiro. Desde os anos 80 algumas designações cristãs, nas disputas do mercado da fé, elegeram os saberes afro-indígenas como inscritos no campo simbólico do maligno. No futebol, diversos jogadores são constrangidos pelo proselitismo cristão". 


Se é possível dar mais de um sentido metafórico para a flecha de Oxóssi lançada por Paulinho, este sentido, para Simas, encontra o coração dos detratores destes saberes. "A flecha do Paulinho acerta o coração de quem chama isso de maligno, reconecta minimamente o futebol com a dimensão da pluralidade da fé nos gramados e é um marco de alta representatividade para os povos de axé".


Respeito

Está posto que o futebol, como a sociedade, abriga de formas distintas os saberes cristãos e os de matriz afro. Fenômeno de décadas atrás, o movimento Atletas de Cristo trouxe aproximação formal entre discurso, prática e diplomacia religiosa, ainda que enviesada, para dentro dos vestiários. São numerosos os relatos, ao longo dos anos, de elencos com líderes que, de tão engajados e comprometidos com determinado livro religioso, tendiam a excluir os colegas de outra fé.

Para o Pai de Paulinho, a questão sempre foi ensinar ao filho a dinâmica da contrapartida do respeito. "O importante é respeitar para ser respeitado, mas sem ter medo de qualquer tipo de preconceito. Sempre converso com meu filho sobre tudo. Religião é uma coisa muito particular, e ele não questiona a de ninguém". Uma parte da leitura do mito de Oxóssi mostra que a sua flecha mata, simbolicamente, entre outras coisas, a infâmia. Nada mais infame do que a intolerância religiosa.


Paulinho naturalmente não falou, nem foi perguntado, sobre este tema quando dava seus primeiros passos no futebol, com a camisa do Vasco da Gama. Com a fama, a experiência adquirida e o aumento de oportunidades de se expressar para um público cada vez maior, foi aos poucos aumentando o volume de seu agueré, instrumento de toque cadenciado que representa a caminhada do caçador Oxóssi na floresta. O uso de redes sociais para firmar seu ponto é relativamente recente. 


Poucos dias atrás, na plataforma The Players Tribune, criada para atletas falarem em primeira pessoa sobre o tema que preferirem, Paulinho escolheu como título de seu depoimento a frase "Que Exu ilumine o Brasil". Um trecho do depoimento: "Como assentado e praticante, vou ao meu pai de santo sempre que estou no Brasil e peço proteção aos orixás, principalmente ao meu Pai Oxóssi e à minha Mãe Iemanjá. Exu é o caminho. Procuro saudá-lo antes de cada obrigação, de cada partida".


Paulinho salvou a seleção brasileira do risco de um empate que seria surreal, garantiu a vitória com sua única flechada e é, hoje, o atleta de Exu mais proeminente que temos. Mas, certamente, não o único. Muito longe disso.(cnnbrasil)




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